06/09/2010

avó.

Quando eu rodar a chave a abrir a porta, espero que estejas lá. Sentada na cadeira de baloiço onde me contavas as histórias das princesas. Lembro-me tão bem da primeira vez que me contaste a história do Capuchinho Vermelho ! Foi no inverno, a lareira estava acesa para aquecer a sala mas mesmo assim eu tinha frio e o único sítio onde me aquecia, era no teu colo. Lembro-me do cheiro do teu cabelo nessa noite, lembro-me do qe vestidas, lembro-me do que sentia..tudo. O teu cabelo cheirava a algo que me acalmava sempre que estava no teu colo..rosas e jasmim. Usavas aquela camisola azul fofa e suave de gola alta e as calças pretas. Tinhas, no pulso, um relógio que te tinha dado no Natal, dez dias antes e no pescoço, por cima da camisola, o fio de ouro que usavas desde sempre e com o qual eu brincava quando estava no teu colo. Peguei no Puffy, o meu ursinho de peluche, na minha chuchu, como na altura chamava á minha chucha, e na fraldinha de pano e sentei-me no teu colo. Lembro-me de me sentir calma, protegida..e segura no teu colo. Apesar de já doente, continuavas a brincar comigo da mesma maneira, como se nada se passasse. Contaste-me a história até adormecer, mas antes, fiz-te prometer que me acabavas de contar a história noutro dia. No dia seguinte, voltei a casa, depois fui para a escola..passaram meses e eu não tinha ainda ido dormir a tua casa para acabares de contar a história. No inverno seguinte a Mafalda nasceu e o tabalho duplicou, menos saídas, mais preocupação. O primeiro Natal dela foi passado lá em casa , mas eu estava tão cansada de abrir tantos presentes que nem tive tempo de pedir uma história para adormecer. Antes que pudesse fazer algo, tu partiste, a meio do ano de 2002. Nunca tive oportunidade de te ouvir contar-me o resto da história. Pensei que tinha muito tempo, que a tua doença era como uma gripe..que passava. Mas não passou e tu não pudeste contar-me como acabava a história. Tive de descobrir mais tarde, ao ler o livro. Tenho saudades, Do cheiro do teu cabelo, de me sentar no teu colo, dos teus abraços..e apesar de por fora sorrir quando me dizem que todo o meu rosto é igual ao teu, - olhos, bocechas, sorriso -por dentro choro, de saudade. Porque não pudeste ver-me dizer a minha primeira tabuada, nao pudeste estar na minha entrega de diplomas do 4º ano, não me viste a ganhar a competição de natação no 7º ano, não pudeste estar comigo no dia em que fui madrinha.. Sobretudo, porque não me despedi de ti. Era muito pequenina. Durante o tempo que estiveste em coma, eu pensava que estavas só a dormir muito, para descansares e quando acordasses ias brincar comigo, demanhã á noite !  A mãe despediu-se de ti, no hospital, e disse que tu percebeste, pois uma lágrima rolou pelo teu rosto. Só queria um momento assim, para me poder despedir e para me poderes contar como acaba a história do Capuchinho Vermelho. Para ouvir da tua boca o « viveram felizes para sempre», avó. Queria lembrar-me de mais coisas, de mais momentos passados contigo. Mas passei apenas 6 anos contigo, era apenas uma criança quando partiste. Todas estas memórias vieram ao de cima quando abri a caixa que nunca ninguém abre em casa do avô. Tinha a camisola azul de gola alta, fofa e suave que eu adorava, o fio de ouro, muitas tralhas.. e bem lá no fundo, uma fotografia minha e tua. Tu, sentada na cadeira de baloiço comigo ao colo. A única fotografia que tenho contigo. Degradada, velha.. mas tinha a mesma essência, a mesma harmonia, o mesmo amor, o mesmo poder de me acalmar. Sei que, fisicamente não estás aqui, mas trago-te sempre comigo no meu coração, avó. Para sempre. Amo-te. Saudades:'c

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